sexta-feira, 9 de abril de 2010

Foi Porque Deus Quiz

Estamos assistindo nos meios de comunicação a tragédia das enchentes e deslizamentos de terras que está abalando o Rio de Janeiro. Episódios de profunda tristeza, com desabrigados, desalojados e mortos, dentre eles inúmeros jovens e crianças, alguns ainda na primeira infância. Muitos de nós temos perguntado: Por que essas coisas acontecem?
Aprendemos ou ouvimos muitas vezes que eram castigos que Deus impunha a seus filhos pelos seus desvios e pecados. Numa visão mais branda e até mesmo na visão de alguns espíritas desinformados, ouvimos que era o carma daquelas pessoas desencarnarem dessa forma para poderem pagar suas dívidas com Deus e com o seu próximo. Mas seria essa uma visão justa da infinita bondade do Nosso Pai? Vamos refletir um pouco sobre essas questões.
Imagine que você tivesse emprestado um dinheiro ao seu filho e que esse prometer pagar em certo tempo combinado entre vocês. Imagine também que por incapacidade em administrar seus bens ou por impulsividade seu filho não tenha conseguido juntar o dinheiro necessário para pagar o empréstimo. O que você faria? Você enviaria outro filho para cobrar o dinheiro e recomendaria que em caso de não quitação o filho cobrador matasse o filho devedor como forma de pagamento pela dívida? Possivelmente não. Um pai ou mãe jamais tomaria a vida de um filho em troca de qualquer que fosse o valor devido, mesmo que esse filho tivesse agido de má fé.
Então imagine que em vez de mandar um cobrador, você mesmo articulasse uma forma de fazer seu filho pagar pelo seu desvio causando-lhe um dano físico ou fazendo uma armadilha onde esse pudesse se ferir gravemente ou mesmo perder a vida. Você se imaginaria fazendo isso? Possivelmente não.
Lembremos Jesus no Sermão da Montanha:
11Qual o pai de entre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, lhe dará uma serpente? 12Ou, se lhe pedir um ovo, lhe dará um escorpião? (Lucas:11:11 a 12).
Se mesmo imperfeitos como somos pensamos no bem estar dos nossos filhos, como será que o Pai Celestial que é amor e perfeição absolutos pensa sobre nós. Como nos tratam os bons Espíritos? Compreendem nossos erros, sofrem por nós e nos auxiliam com seus conselhos.
Seria Deus então um agiota cruel e desalmado que cobraria nossas faltas ao pr~eço de nossa própria vida? Claro que não!
Mas, até mesmo no meio espírita vemos irmãos defendendo a idéia de que Deus nos pune pelos nossos pecados. Esqueceram de ler o Evangelho e resto da codificação.
Vejamos então essa passagem do Evangelho Segundo o Espiritismo:
Caridade para com os criminosos
14. A verdadeira caridade constitui um dos mais sublimes ensinamentos que Deus deu ao mundo. Completa fraternidade deve existir entre os verdadeiros seguidores da sua doutrina. deveis amar os desgraçados, os criminosos, como criaturas, que são, de Deus, às quais o perdão e a misericórdia serão concedidos, se arrependerem, como também a vós,pelas faltas que cometeis contra sua Lei. Considerai que sois mais repreensíveis,mais culpados do que aqueles a quem negardes perdão e comiseração, pois, as mais das vezes, eles não conhecem Deus como o conheceis, e muito menos lhes será pedido do que a vós.
(E.S.E. cap.XI. item. 14).
Observemos também em O Céu e o Inferno – A justiça divina segundo o Espiritismo – na primeira parte do capítulo 7. – O Código penal da vida futura.

“1º - A alma ou Espírito sofre na vida espiritual as conseqüências de todas as imperfeições que não conseguiu corrigir na vida corporal. O seu estado, feliz ou desgraçado, é inerente ao seu grau de pureza ou impureza.
Em outro ítem desse mesmo título temos:
5º - Dependendo o sofrimento da imperfeição, como o gozo da perfeição, a alma traz consigo o próprio castigo ou prêmio, onde quer que se encontre, sem necessidade de lugar circunscrito. 2
O inferno está por toda parte em que haja almas sofredoras, e o céu igualmente onde houver almas felizes.”

Ou seja, quando cometemos uma falta, provocamos uma alteração em nosso próprio espírito, que funciona como um sinal, um estigma, tal como se fora uma espécie de “marca de Caim” do Velho Testamento. Essa marca fica em nosso perispírito e nos distingue de todos os outros. A falta cria em nós o desequilíbrio energético que só será ajustado com a quitação.
“7º - O Espírito sofre pelo mal que fez, de maneira que, sendo a sua atenção constantemente dirigida para as conseqüências desse mal, melhor compreende os seus inconvenientes e trata de corrigir-se.”

E como se opera essa quitação? Ainda nesse mesmo item temos:

“16º - O arrependimento, conquanto seja o primeiro passo para a regeneração, não basta por si só; são precisas a expiação e a reparação.”


Ou seja, o Espírito faltoso está constantemente ligado à sua falta e tem permanentemente sua atenção dirigida para esta. Como qualquer um de nós que cometendo um erro por menor que seja e tenta encobri-lo ficando permanentemente em alerta para não se trair revelando o fato.
Como vimos, no entanto, não basta arrepender-se. É preciso expiar e reparar. Ou seja, devolver ao universo aquela energia que desequilibramos sob a forma de expiação (pagamento? Faltam palavras pela pobreza do nosso vernáculo. Eu usaria quitação). E por fim reparação.
Ora, para repararmos uma falta podemos nos utilizar de diversas atitudes. Mas a Codificação não fala de autoflagelação, castigos impostos. Se a lei humana prescreve penas alternativas e não prescreve a pena de morte (exceto em alguns países que ainda a utilizam por sua dureza) nem mesmo para aquele que praticou homicídio; porque Deus quereria que nos matássemos de uma vez que sabemos que ninguém morre?

Parece-nos então que o ponto importante é a reparação. Fazer pelo outro aquilo que gostaríamos que fizessem por nós.
Podemos argumentar contra isso que mesmo que queiramos reparar a falta, como faremos se a nossa vítima já não estiver conosco?
Lembremos então que a nossa falta não é somente contra a nossa vítima. Ela é principalmente um desequilíbrio que provocamos contra as leis que regem o universo. Devemos então nos quitar com essas leis. Daí a importância fundamental da prática da caridade.
Mais importante do que a fé, é a caridade, filha legítima do amor que pode nos reequilibrar e nos conduzir de volta ao equilíbrio energético com o universo. Daí a importância da frase: “Fora da caridade não há salvação”.

A partir dessas reflexões podemos então inferir que quando dizemos que se uma desgraça acontece é porque Deus quer ou pior ainda é porque Ele nos castigou, estamos afirmando um absurdo, uma irracionalidade.
Como poderia o amor ser vingativo ou punitivo?
Quando algo de ruim nos acontece, é porque nós nos vinculamos a uma falta e essa falta nos vincula a uma punição que será realizada por nossa falta de cuidado ou a uma reparação pelo amor e trabalho pelo próximo.
Oremos então por esses irmãos que estão sofrendo. Oremos pela natureza que está pedindo socorro pelo mal que lhe causamos. Oremos pelos desencarnados que se quitaram por suas próprias faltas.
Agradeçamos ao Senhor da Vida pelo seu imenso amor por nós e a Jesus por nos revelar esse amor. Paz a todos!

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